Vergonha Alheia Galopante
É isso. A novela “A Favorita” está com os dias contados e foi um sucesso arrebatador. Nunca assisti por livre e espontânea vontade. Digo isso, porque na casa da minha sogra a tv fica invariavelmente sintonizada na Rede Bobo, ops, Globo. E eu sou obrigada a assistir aquela merda, ops, novela, toda vez que vou lá. Na verdade, o que faço é criticar impiedosamente todas as cenas, na tentativa vã de criar algum constrangimento. Ou seja, pra ver se alguém troca o maldito canal.
Quarta feira, gozando de perfeita saúde mental (ou não) decidi assistir a tal novela. Um pouco tarde demais, mas tá valendo. Sei la, deve ser porque eu detesto me sentir um peixe fora d´água ou por que os meus hormônios andam loucos . Só sei que decidi me torturar só um pouquinho. E lá estava eu assistindo, boquiaberta, uma Claudia Raia, gorda feito uma baleia, ao lado de Patrícia Pillar entoando, toscamente, uma modinha sertaneja. Na sequência, a ação se passa num palco escuro onde Donatella se recusa a cantar se Flora não entregar a ela um tal lenço vermelho que a vilã usa como amuleto. Tal exigência, desestabiliza emocionalmente Flora. Ai eu pergunto: É sério isso?? É por causa daquela dramaturgia que as pessoas deixam de sair de casa entre 21:00 e 22:00??? É aquele o primoroso texto que têm feito o coração da população palpitar? São aquelas as emocionantes interpretações?? Eu sinto tanta vergonha desse país. O Brasil pára pra assistir o desfecho de uma trama de quinta e a criminosa sou eu por não fazer o mesmo.
E agora vem mais um retumbante sucesso de Gloria Perez. Mais uma vez, a brilhante autora nos brindará com uma aula sobre uma cultura que desconhecemos. Depois dos ciganos e dos marroquinos, chega a vez dos indianos terem sua cultura distorcida no horário nobre. Dentro em breve o povão estará repetindo feito papagaio os bordões dos personagens. O comércio popular será invadido por bijuterias e acessórios para que as meninas possam (tentar) ficar igual a Juliana Paes. Haverá Ganeshas e Shivas disponíveis em todas as lojas de 1,99 da nação. Todos os bailes de debutantes do subúrbio terão a Índia como tema. As agências de turismo perceberão um súbito interesse, dos mais abastados, em conhecer o referido país. E, como cereja do bolo, algum dj carioca criará um funk inspirado na novela.
Permanecerei, desde já, na minha bolha, de onde nunca deveria ter saído, com meus livros e os salvadores canais de tv a cabo.
Enquanto o marido não chega em casa, tenho Olívia, minha poodle, e Paçoca, minha labradora, pra conversar. Elas dão um papo muito melhor que muita gente por aí.
Citando [3]
“Por ora, Rudy e Liesel caminhavam para a Rua Himmel embaixo de chuva. Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo inteiro. Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras. Mas, acredite, as palavras estava a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria na mão feito nuvens, e as torceria feito chuva”.
É. O mesmo livro. De novo.
Pronto. Parei.
Citando [2]
“Por favor, acredite quando lhe digo que, naquele dia, peguei cada alma como se fosse um recém- nascido. Cheguei até a beijar alguns rostos exaustos, envenenados. Ouvi seus últimos gritos entrecortados. Suas palavras evanescentes. Observei suas visões de amor e os libertei do seu medo.
A todos levei embora e, se houve um momento em que precisei de distração, foi esse. Em completa desolação, olhei para o mundo lá em cima. Vi o céu transformar-se de prata em cinza e em cor de chuva. Até as nuvens tentavam fugir.
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo sem sombra de dúvida, que o sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul”
Trecho de A Menina que Roubava Livros.
Terminei agora de tarde.
E continuo apaixonada por ela.
Citando
“Primeiro, as cores.
Depois, os humanos.
Em geral, é assim que eu vejo as coisas.
Ou, pelo menos, tento.
Eis um pequeno fato.
Você vai morrer.
Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, seja quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça pra ser simpática. Simpática não tem nada ver comigo.”
Trecho de A Menina que Roubava Livros.
Sim. Estou apaixonada por ela.